Comentário interessante feito por Moura acerca do conceito de
fortuna em
Maquiavel.
De fato, na postagem feita sobre a candidatura Serra, a utilização dos conceitos de
fortuna e virtude em
Maquiavel foi simplista (fortuna=acaso, virtude=qualidade) diante da riqueza dos conceitos originais. Isto se deveu à própria finalidade daquele comentário.
Mesmo este conceito simplista pode ser encontrado em vários trechos iniciais
d'O Príncipe. Por exemplo: no final do Capítulo I, quando ele diz que novos domínios "
são adquiridos com tropas de outrem ou próprias, pela fortuna ou pelo mérito".
A visão mais elaborada é dada por
Maquiavel no penúltimo capítulo de sua obra: Capítulo XXV - "
De Quanto Pode A Fortuna Nas Coisas Humanas E De Que Modo Se Deve Resistir-lhe".
Estes trechos ajudam a entender o seu conceito.
Ele começa reconhecendo a opinião acerca da preponderância da fortuna:
"
Não me é desconhecido que muitos têm tido e têm a opiniâo de que as coisas do mundo são governadas pela fortuna e por Deus, de sorte que a prudência dos homens não pode corrigi-las, e mesmo não lhes faz remédio algum".
Mas admite a importância das ações humanas:
"
Não obstante, e porque o nosso livre-arbítrio não desapareça, penso poder ser verdade que a fortuna seja árbitra de metade de nossas ações, mas que, ainda assim, ela nos deixa governar quase a outra metade".
As ações humanas podem decidir o nosso destino, mas só levarão ao sucesso se forem apropriadas às particularidades do seu tempo:
"
Também julgo feliz aquele que combina o seu modo de proceder com as particularidades dos tempos, e infeliz o que faz discordar dos tempos a sua maneira de proceder."
O sucesso do governante dependerá da sua capacidade de se adaptar às particularidades do tempo; esta é a grande
virtude para
Maquiavel. Ser corajoso, quando o estado das coisas exige; ser cauteloso quando o estado do tempo assim o exige.
Obrigado, Moura.